sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O PIONEIRISMO DE EDUARDO PINHEIRO LOBO - MARKETING E RP NO BRASIL


EDUARDO PINHEIRO LOBO (02-12 1876\15 -02-1933)


EDUARDO PINHEIRO LOBO, PIONEIRO DAS RELAÇÕES PÚBLICAS E MARKETING

Prof. Dr. Sebastião Breguêz

O engenheiro Eduardo Pinheiro Lobo é o pioneiro das Relações Públicas no Brasil. Ele foi o fundador do primeiro Departamento de Relações Públicas da The São Paulo Tramway Ligth and Power Co. Limited, a Companhia Paulista de Energia Elétrica Ligth, em 1914, hoje denominada Eletropaulo Eletricidade de São Paulo S/A. Em sua criação, este departamento ficou encarregado dos “negócios da Companhia com as autoridades estaduais e municipais, passes escolares”.

Pouco se sabe de sua vida particular de Eduardo Pinheiro Lobo. Entretanto, há uma tese de mestrado da alagoana Mirtes Torres, sob a orientação do prof. dr. José Marques de Melo, da Umesp, sobre  a vida e obra do ‘pai das RRPP brasileiras’. A tese está dentro do projeto Memória Midiática Brasileira e foi apresentada em 2000 na UMESP, em São Bernardo do Campos, SP. 


Eduardo Pinheiro Lobo nasceu na cidade de Penedo, Alagoas, em 2 de dezembro de 1876 – 16 anos antes de se ter usado no mundo, pela primeira vez, a expressão "Public Relations", conforme pesquisas realizadas nos Estados Unidos. A casa onde nasceu foi tombada pelo Patrimônio Histórico.

Após os estudos primários, com apenas nove anos de idade, foi enviado para o Rio de Janeiro a fim de cursar o Colégio Militar, carreira que pretendiam fosse por ele seguida.

No entanto, por volta de 1896, motivos relacionados com a Revolta da Armada, encabeçada por Custódio de Mello, contra o Governo de Floriano Peixoto, fizeram com que o jovem Eduardo Pinheiro Lobo, então com 19 anos de idade, interrompesse a carreira e seguisse para Inglaterra, a fim de estudar engenharia.

Completados os estudos, retornou ao Brasil, passando a residir em São Paulo, onde constituiu família, casando-se com Dona Ema Schwob. O casal teve os filhos Jose Marcos Eduardo, Hilda Maria Francisca, Rodolfo Gabino, Ema Suzana, Olga Sara e Edgard.

Este último, há pouco tempo falecido, foi médico pediatra de grande valor e dedicação à profissão. Tive o privilégio de com ele conviver durante muitos anos, por ter sido o médico de meus filhos.

Viúvo aos 40 anos de idade, Eduardo Pinheiro Lobo assumiu, então, todas as responsabilidades da família, dedicando-se a ela com desvelo, paralelamente com sua atividade na empresa.

Seu "hobby" era tirar fotografias. Ele mesmo gostava de fazer a revelação dos filmes e as cópias, possuindo em sua casa um pequeno laboratório, mas as suas preocupações e o grande volume de trabalho que lhe era atribuído, fizeram-no abandonar cedo essa atividade.

Ao radicar-se na cidade de São Paulo, trabalhou inicialmente em uma indústria – a Fábrica Penteado –, depois na Companhia de Gás de São Paulo, e, em 1906, ingressou na "The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited", empresa canadense que, no início do século, havia sido constituída e tinha concessão dos transportes coletivos em bondes elétricos e do fornecimento de energia elétrica na cidade de São Paulo.

No início de 1914, a direção da Light, sentindo a necessidade de um setor especializado para cuidar do seu relacionamento com os órgãos da imprensa e com os poderes concedentes, criou, por meio de um "Aviso Interno", baixado em 30 de janeiro daquele ano, o Departamento de Relações Públicas, com aquelas funções específicas, e outras que mais tarde viessem a lhe ser atribuídas.

A chefia do referido departamento – o qual, de acordo com o citado aviso, se tornaria efetivo a partir de 1º de fevereiro de 1914, foi confiada a Eduardo Pinheiro Lobo, que já vinha prestando serviços à empresa em outro setor, e se revelara capaz de imprimir as diretrizes que se tinha em vista para o novo órgão

Circunstância curiosa é a de que, no aviso em questão, embora redigido em inglês, como era usual, na época, por se tratar de uma companhia canadense, as palavras "Relações Públicas" apareciam em português, entre aspas, admitindo-se que tenha sido essa a primeira vez que tal expressão foi escrita, num documento, em outro idioma que não o inglês.

Existem razões para supor que a nomeação do Dr. Eduardo Pinheiro Lobo para este posto, e mesmo a criação do Departamento de Relações Públicas, tenha sido uma surpresa.

Essa suposição encontra justificativa em uma notícia publicada no jornal A Gazeta, de São Paulo, em 2 de fevereiro de 1914, que dizia: "Ouvimos que se darão proximamente várias modificações na direção da Light em São Paulo. Ao que nos disseram, o Dr. Eduardo Pinheiro Lobo, atual superintendente da Luz e Força, será nomeado vice-presidente da companhia, sendo substituído naquele cargo pelo Sr. Raink, chefe da Light em Sorocaba".

Tal nota, observe-se, foi divulgada no dia seguinte àquele em que o Departamento de Relações Públicas da Light iniciara suas atividades.

A instalação do Departamento de Relações Públicas ocorreu numa ocasião em que a empresa atravessava período difícil, porque o aumento da demanda de energia elétrica absorvia a capacidade de geração de suas duas usinas, uma hidráulica e outra a vapor.

A seca, durante o ano de 1914, fora rigorosa e estava a Light no fim dos seus recursos hidráulicos, quando conseguia receber energia de uma usina construída na cidade de Sorocaba, no interior do Estado de São Paulo.

O reservatório de regularização, alimentador da usina hidrelétrica de Parnaíba, no rioTietê, esta desde o último trimestre de 1913 com o nível muito baixo.

O suprimento recebido de Sorocaba constituiu um alívio, normalizando a situação, mas, até então, qual teria sido a opinião do público a respeito?

Pesquisas realizadas em recortes de jornais da época não revelaram a existência de publicações em que a empresa aparecesse como culpada pela situação, que se sabia ser causada pela prolongada estiagem, reduzindo a vazão do rio onde se situava a principal usina do sistema elétrico.

Isso revela, sem dúvida, ter sido desenvolvido um bom trabalho de Relações Públicas, na manutenção de um relacionamento eficaz com a imprensa, objetivando o esclarecimento da opinião pública.

O mérito de Eduardo Pinheiro Lobo foi de criar, pela primeira vez no Brasil, um setor de Comunicação numa empresa estatal que tinha como objetivo principal manter a opinião pública paulista informada sobre as ações da Light. Nesta época, haviam muitos protestos populares contra os serviços oferecidos pelas empresas estatais, cuja baixa qualidade traziam grandes insatisfações no seio dos consumidores. Dessa forma, o trabalho das Relações Públicas no Brasil, nasceu tentando mudar a visão que as pessoas tinham, já no início do século e na cidade mais desenvolvida do país sobre a qualidade dos serviços oferecidos pelas empresas governamentais. Pinheiro Lobo, de formação técnica e sem conhecer profundamente os processos da Comunicação Empresarial, conseguiu manter um fluxo de informações entre a Ligth e a Opinião Pública e ganhou, aos pouco, confiança do público consumidor, criando uma imagem positiva da empresa. Pinheiro Lobo desenvolveu esta atividade na Ligth até 1935.

É interessante notar que as Relações Públicas, enquanto atividade sistemática e profissional nas empresas ( sejam públicas, privadas ou mistas) só vão se desenvolver no Brasil a partir dos anos 50.  É a partir daí que surgem Cursos na Fundação Getúlio Vargas, no Rio, e posteriormente, nas atividades da Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), que reagrupa os profissionais mais conhecidos da época. Entretanto, o papel de Eduardo Pinheiro Lobo foi inédito e importante para iniciar uma importante área de Comunicação no Brasil. Por isto, ficou na história como ‘pai das Relações Públicas’ no Brasil.