sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O PIONEIRISMO DE EDUARDO PINHEIRO LOBO - MARKETING E RP NO BRASIL


EDUARDO PINHEIRO LOBO (02-12 1876\15 -02-1933)


EDUARDO PINHEIRO LOBO, PIONEIRO DAS RELAÇÕES PÚBLICAS E MARKETING

Prof. Dr. Sebastião Breguêz

O engenheiro Eduardo Pinheiro Lobo é o pioneiro das Relações Públicas no Brasil. Ele foi o fundador do primeiro Departamento de Relações Públicas da The São Paulo Tramway Ligth and Power Co. Limited, a Companhia Paulista de Energia Elétrica Ligth, em 1914, hoje denominada Eletropaulo Eletricidade de São Paulo S/A. Em sua criação, este departamento ficou encarregado dos “negócios da Companhia com as autoridades estaduais e municipais, passes escolares”.

Pouco se sabe de sua vida particular de Eduardo Pinheiro Lobo. Entretanto, há uma tese de mestrado da alagoana Mirtes Torres, sob a orientação do prof. dr. José Marques de Melo, da Umesp, sobre  a vida e obra do ‘pai das RRPP brasileiras’. A tese está dentro do projeto Memória Midiática Brasileira e foi apresentada em 2000 na UMESP, em São Bernardo do Campos, SP. 


Eduardo Pinheiro Lobo nasceu na cidade de Penedo, Alagoas, em 2 de dezembro de 1876 – 16 anos antes de se ter usado no mundo, pela primeira vez, a expressão "Public Relations", conforme pesquisas realizadas nos Estados Unidos. A casa onde nasceu foi tombada pelo Patrimônio Histórico.

Após os estudos primários, com apenas nove anos de idade, foi enviado para o Rio de Janeiro a fim de cursar o Colégio Militar, carreira que pretendiam fosse por ele seguida.

No entanto, por volta de 1896, motivos relacionados com a Revolta da Armada, encabeçada por Custódio de Mello, contra o Governo de Floriano Peixoto, fizeram com que o jovem Eduardo Pinheiro Lobo, então com 19 anos de idade, interrompesse a carreira e seguisse para Inglaterra, a fim de estudar engenharia.

Completados os estudos, retornou ao Brasil, passando a residir em São Paulo, onde constituiu família, casando-se com Dona Ema Schwob. O casal teve os filhos Jose Marcos Eduardo, Hilda Maria Francisca, Rodolfo Gabino, Ema Suzana, Olga Sara e Edgard.

Este último, há pouco tempo falecido, foi médico pediatra de grande valor e dedicação à profissão. Tive o privilégio de com ele conviver durante muitos anos, por ter sido o médico de meus filhos.

Viúvo aos 40 anos de idade, Eduardo Pinheiro Lobo assumiu, então, todas as responsabilidades da família, dedicando-se a ela com desvelo, paralelamente com sua atividade na empresa.

Seu "hobby" era tirar fotografias. Ele mesmo gostava de fazer a revelação dos filmes e as cópias, possuindo em sua casa um pequeno laboratório, mas as suas preocupações e o grande volume de trabalho que lhe era atribuído, fizeram-no abandonar cedo essa atividade.

Ao radicar-se na cidade de São Paulo, trabalhou inicialmente em uma indústria – a Fábrica Penteado –, depois na Companhia de Gás de São Paulo, e, em 1906, ingressou na "The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited", empresa canadense que, no início do século, havia sido constituída e tinha concessão dos transportes coletivos em bondes elétricos e do fornecimento de energia elétrica na cidade de São Paulo.

No início de 1914, a direção da Light, sentindo a necessidade de um setor especializado para cuidar do seu relacionamento com os órgãos da imprensa e com os poderes concedentes, criou, por meio de um "Aviso Interno", baixado em 30 de janeiro daquele ano, o Departamento de Relações Públicas, com aquelas funções específicas, e outras que mais tarde viessem a lhe ser atribuídas.

A chefia do referido departamento – o qual, de acordo com o citado aviso, se tornaria efetivo a partir de 1º de fevereiro de 1914, foi confiada a Eduardo Pinheiro Lobo, que já vinha prestando serviços à empresa em outro setor, e se revelara capaz de imprimir as diretrizes que se tinha em vista para o novo órgão

Circunstância curiosa é a de que, no aviso em questão, embora redigido em inglês, como era usual, na época, por se tratar de uma companhia canadense, as palavras "Relações Públicas" apareciam em português, entre aspas, admitindo-se que tenha sido essa a primeira vez que tal expressão foi escrita, num documento, em outro idioma que não o inglês.

Existem razões para supor que a nomeação do Dr. Eduardo Pinheiro Lobo para este posto, e mesmo a criação do Departamento de Relações Públicas, tenha sido uma surpresa.

Essa suposição encontra justificativa em uma notícia publicada no jornal A Gazeta, de São Paulo, em 2 de fevereiro de 1914, que dizia: "Ouvimos que se darão proximamente várias modificações na direção da Light em São Paulo. Ao que nos disseram, o Dr. Eduardo Pinheiro Lobo, atual superintendente da Luz e Força, será nomeado vice-presidente da companhia, sendo substituído naquele cargo pelo Sr. Raink, chefe da Light em Sorocaba".

Tal nota, observe-se, foi divulgada no dia seguinte àquele em que o Departamento de Relações Públicas da Light iniciara suas atividades.

A instalação do Departamento de Relações Públicas ocorreu numa ocasião em que a empresa atravessava período difícil, porque o aumento da demanda de energia elétrica absorvia a capacidade de geração de suas duas usinas, uma hidráulica e outra a vapor.

A seca, durante o ano de 1914, fora rigorosa e estava a Light no fim dos seus recursos hidráulicos, quando conseguia receber energia de uma usina construída na cidade de Sorocaba, no interior do Estado de São Paulo.

O reservatório de regularização, alimentador da usina hidrelétrica de Parnaíba, no rioTietê, esta desde o último trimestre de 1913 com o nível muito baixo.

O suprimento recebido de Sorocaba constituiu um alívio, normalizando a situação, mas, até então, qual teria sido a opinião do público a respeito?

Pesquisas realizadas em recortes de jornais da época não revelaram a existência de publicações em que a empresa aparecesse como culpada pela situação, que se sabia ser causada pela prolongada estiagem, reduzindo a vazão do rio onde se situava a principal usina do sistema elétrico.

Isso revela, sem dúvida, ter sido desenvolvido um bom trabalho de Relações Públicas, na manutenção de um relacionamento eficaz com a imprensa, objetivando o esclarecimento da opinião pública.

O mérito de Eduardo Pinheiro Lobo foi de criar, pela primeira vez no Brasil, um setor de Comunicação numa empresa estatal que tinha como objetivo principal manter a opinião pública paulista informada sobre as ações da Light. Nesta época, haviam muitos protestos populares contra os serviços oferecidos pelas empresas estatais, cuja baixa qualidade traziam grandes insatisfações no seio dos consumidores. Dessa forma, o trabalho das Relações Públicas no Brasil, nasceu tentando mudar a visão que as pessoas tinham, já no início do século e na cidade mais desenvolvida do país sobre a qualidade dos serviços oferecidos pelas empresas governamentais. Pinheiro Lobo, de formação técnica e sem conhecer profundamente os processos da Comunicação Empresarial, conseguiu manter um fluxo de informações entre a Ligth e a Opinião Pública e ganhou, aos pouco, confiança do público consumidor, criando uma imagem positiva da empresa. Pinheiro Lobo desenvolveu esta atividade na Ligth até 1935.

É interessante notar que as Relações Públicas, enquanto atividade sistemática e profissional nas empresas ( sejam públicas, privadas ou mistas) só vão se desenvolver no Brasil a partir dos anos 50.  É a partir daí que surgem Cursos na Fundação Getúlio Vargas, no Rio, e posteriormente, nas atividades da Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), que reagrupa os profissionais mais conhecidos da época. Entretanto, o papel de Eduardo Pinheiro Lobo foi inédito e importante para iniciar uma importante área de Comunicação no Brasil. Por isto, ficou na história como ‘pai das Relações Públicas’ no Brasil.

domingo, 7 de setembro de 2014

PHILIP KOTLER, PAPA DO MARKETING, EM BEAGÁ

PHILIP KOTLER, PAPA DO MARKETING, EM BEAGÁ



Philip Kotler, o Papa do Marketing, esteve em Belo Horizonte e deu  show de excelência no Palácio das Artes, em seminário inédito sobre como criar, conquistar e dominar mercados. Referência mundial quando se trata de marketing, dentro das empresas e das universidades, o americano Philip Kotler, de 83 anos, esteve em Belo Horizonte pela primeira vez para a o seminário HSM – “The best of Philip Kotler – Como criar, conquistar e dominar mercados”, organizado pelos centros universitários UNI-BH, UNA e pela HSM Educação Executiva, no Palácio das Artes. Com plateia lotada e sedenta de informação, o mestre compartilhou todo o seu conhecimento e know-how na área.

Kotler falou de como repensar o marketing em uma era de grandes mudanças, das megatendências do mundo de hoje e como explorá-las, do marketing como impulsor do crescimento da empresa, das últimas tendências em tecnologia de marketing e quais as forças que estão definindo o novo marketing centrado no ser humano. Informações restritas aos presentes no evento ou compartilhadas, pelo menos parte delas, nos muitos de seus livros (são mais de 50 títulos). Aliás, os mais recentes são Marketing 3.0, Winning at innovation e Market your way to growth: 8 ways to win. Incansável, ele não para de produzir e trabalhar. Atua como consultor de grandes corporações (General Electric, IBM, AT&T, Honeywell, Michelin e Merck, para citar algumas), é palestrante mundial e professor na Kellogg School of Management, da Northwestern University.

Mestre pela Universidade de Chicago e com Ph.D. pelo MIT, ambos em economia, chamou a atenção no seminário sua visão sobre a importância da inovação para as empresas sobreviverem no mercado atual. Kotler destaca que aperfeiçoar não é inovar e reforça que inovar não é uma escolha. “As empresas precisam criar internamente uma mentalidade de inovação. A maioria espera que ideias e iniciativas surjam naturalmente. Continuam fazendo a mesma coisa ou tentando aumentar a eficiência em vez de buscar coisas novas para fazer. Lembre-se de que, em alguma garagem, algum inovador está produzindo algo que tornará obsoleta sua empresa e, talvez, todo o seu setor de atividade.” Ele alerta que para ter sucesso em inovação é preciso, entre outras coisas, “estabelecer uma relação de trabalho forte entre inovadores, profissionais de marketing e facilitadores; indicar pessoas para atuar nas funções de ativador, buscador, criador, desenvolvedor, executor e facilitador; e convidar clientes e outros stakeholders para cocriar seu futuro.”

Para crescer mais e melhor, Philip Kotler reforça a importância do marketing digital. Ninguém sobrevive mais sem o uso da tecnologia. “As empresas carecem de mente digital. A tecnologia mudou a forma de fazer negócio. Antes, o cliente só sabia da empresa pelo comercial da TV. Hoje, além de ter acesso a tudo sobre o produto antes de comprá-lo pela internet, ainda troca opinião com o amigo, com as redes sociais. As novas mídias se tornaram ferramentas de marketing. A forma antiga vai morrer, então? Não, mas a visão progressista é que haja a sinergia para um trabalho benfeito. Hoje, entre 25% e 35% usam as duas mídias. Minha previsão é que daqui a cinco anos o orçamento das empresas será dividido em 50% entre a mídia nova e a antiga.”

Para o sucesso de uma marca, Philip Kotler lembra que é preciso tornar os clientes não só consumidores, “mas seguidores e fãs. A busca é ter um cliente que espere pelo seu próximo produto, este é o segredo da grande empresa, como a Apple por exemplo. Agora, não importa se você tem uma pequena ou média empresa, com orçamento limitado e um só tiro, uma bala de prata. Os princípios para fazer a diferença são os mesmos, mas de forma escalonada. Formar um clube, dar pontos de frequência para quem compra mais o produto, enfim, impactar o cliente. Não acho que exija sempre um alto gasto com campanhas. Às vezes, de 10 comerciais de 30 segundos, a maioria vai se lembrar de um. Então, por que gastar tanto? Para quem não tem dinheiro, basta uma ideia brilhante, uma página do Facebook que repercuta, novas e interessantes ideias que se comuniquem com as pessoas, claro, que identifique seu cliente”.

Para finalizar, Kotler enfatizou que o conceito de marketing atual, como ele funciona num panorama amplo, envolve: “O marketing integrado (produtos, canais, preços, os 4ps), o de relacionamento (clientes, funcionários, parceiros), o interno (é preciso ser bom com a alta gerência e com os outros departamentos) e com o bom marketing que vai se mostrar socialmente responsável”. Aliás, ele ensina que as empresas precisam dar o salto para o estágio do marketing 3.0, “que, além da razão e emoção, tem de incorporar o espírito, ou seja, se preocupar com o mundo, com o planeta e com as boas práticas para o meio ambiente. Assim, a empresa terá clientes comprometidos, engajados e que vão falar para outros porque seu negócio é bom, porque gosta do seu produto ou serviço. O cliente vendedor é a missão da empresa. E, no fim, esse cliente vai até comprar papel da sua empresa”. 

VALIOSAS DICAS DE KOTLER


Estratégias para vencer:
1) Construção de market share
2) Desenvolvimento de clientes e stakeholders 
engajados
3) Criação de marcas poderosas
4) Inovação em novos produtos, serviços e experiências
5) Expansão internacional
6) Fusões, aquisições, alianças e joint ventures
7) Cultivo de uma reputação notável em responsabilidade social
8) Parcerias envolvendo governo e ONGs 

Algumas características das empresas 
mais amadas:
1) Alinham os interesses de todos os grupos de 
stakeholders
2) O salário de seus executivos é relativamente modesto
3) Adotam uma política de “portas abertas” de acesso à alta gerência
4) A remuneração e os benefícios de seus 
funcionários são elevados para a categoria; o treinamento de seus funcionários é mais longo; e a rotatividade de mão de obra é menor
5)Contratam pessoas que têm 
entusiasmo pelos clientes.

sábado, 16 de agosto de 2014

MARKETING/RELAÇÕES PÚBLICAS - NOÇÃO DE PÚBLICO

NOÇÃO DE PUBLICO EM RELAÇÕES PÚBLICAS
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Prof. Dr. Sebastião Breguez


 
A palavra público está intimamente ligada à noção mesma da atividade de Relações Públicas, que é trabalhar públicos e Opinião Pública. Desde que Ivy Lee, na primeira década desde século, iniciou as atividades de relações públicas (ele já era homem de comunicação, era jornalista) já se tinha uma noção clara e precisa do que era público ou mesmo opinião pública. A noção de público se contrapõe à noção de elite e de massa. ELITE é a minoria prestigiada e dominante num determinado grupo social ou mesmo país, constituída de indivíduos que detém o poder (econômico, político, social).

A noção de MASSA envolve um grande número de pessoas que mantém entre si uma certa coesão de caráter social, cultural, econômico. Público, segundo Aurélio Buarque de Holanda (NOVO DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, Rio, Ed. Nova Fronteira) vem do latim publicu, é tudo relativo ou pertencente ou destinado ao povo, coletividade; conjunto de pessoas que leem, veem ou ouvem uma obra literária, dramática, musical; conjunto de pessoas que assistem efetivamente a um espetáculo, uma reunião, a uma manifestação; assistência ou auditório; o público da corrida, do futebol, do congresso‚ disco, de uma sessão do cinema, de um concerto; conjunto de pessoas a que se destina uma mensagem artística, jornalística, publicitária; sociologicamente, um agregado ou conjunto instável de pessoas pertencentes a grupos sociais diversos, e dispersas sobre determinada área, que pensam e sentem de modo semelhante a respeito de problemas, gostos ou movimentos de opinião. Assim, público externo é o segmento do público de certa forma relacionado às atividades de uma empresa ou organização, mas que não faz parte integrante desta (fornecedores, consumidores, autoridades governamentais, público em geral).

Público Interno é o segmento do público constituído essencialmente dos diretores e empregados de uma empresa ou organização, incluindo, eventualmente, acionistas, conselheiros, vendedores, etc.

Já o professor Cândido Teobaldo de Andrade (DICIONÁRIO PROFISSIONAL DE RELAÇÕES PÚBLICAS E COMUNICAÇÃO, SP, Ed. Saraiva) no verbete público ( entre várias definições) diz: "Para as RRPP este vocábulo adquire uma significação especial, pois se refere aos grupos de indivíduos cujos interesses comuns são atingidos pelas ações de uma organização, instituição ou empresa da mesma forma que os atos desses grupos se refletem na organização ( ver o Guia de Relações Públicas do Exército).

Uma outra formulação vem dos estudos do sociólogo Gabriel Cohn, em sua tese de doutoramento, na USP, publicada em livro (SOCIOLOGIA DA COMUNICAÇÃO, SP, Ed. Pioneira, 1973). O autor estuda exaustivamente as noções de Massa, Público e Elite. Ele diz que a noção de público é inseparável daquelas de opinião (na área política) e gosto (na esfera estética).Assim, público envolve a noção de cidadão (no campo político). Historicamente, então, o público aparece sociedades quando há manifestações políticas em favor de um ou outro partido político, ou então, de preferências religiosas (depois do aparecimento do Protestantismo, por exemplo), ou mesmo preferências culturais (com a criação da imprensa móvel por Gutemberg, no Séc. XV, que permitiu a difusão da mensagem impressa através de jornais e livros - o que favoreceu a difusão da literatura, da filosofia e das doutrinas políticas). Portanto, desde o século XV já tínhamos a formação da Opinião Pública ( com públicos diferenciados). Depois da revolução Francesa, que derrubou a Monarquia, cria-se o Estado Moderno com partidos políticos - foi na Revolução Francesa, por exemplo, que surgiu a noção de esquerda ou direita. Com a revolução Industrial, cria-se as empresas que passam a dominar o mercado da produção e do consumo - ai surge a noção de público-consumidor, que mais tarde é desenvolvida.

Público, assim, é um termo com que os homens de Comunicação se defrontam no seu cotidiano; está presente no vocabulário de políticos, homens de empresas, jornalistas, publicitários, administradores de empresa, etc. A palavra ganhou notoriedade e está muito ligado ao fenômeno da Opinião Pública. Usa-se e abusa-se da palavra público, o que induz obviamente à dispersão de conceitos e se confundem conceitos como público, povo, massa, multidão, etc. Daí a necessidade, para o profissional de Relações Públicas, de fazer a delimitação conotativa do termo de modo a utilizar a expressão em sua concepção mais adequada. Todos os vocábulos mencionados acima supõem um número que é o grupo de gente em processo de manifestação, resposta-estímulo, identificação e integração. O público, todavia, implica uma característica particular, situada acima do grupo, que supera os impulsos de agregação interior para revelar certa forma de coesão exteriorizada.

O termo público em RRPP indica "relações com o público". O que é, então, um público? O público é um grupo de pessoas que se distinguem das outras por uma ou mais características em comum, como ler o mesmo jornal, trabalhar para a mesma companhia, professar a mesma religião, frequentar a mesma escola ou viver no mesmo bairro. Todo público está sujeito a uma análise baseada em uma pesquisa separada. Cada público tem suas atitudes próprias. Desenvolveram-se formas e meios de eficiência comprovada para atingir públicos individuais. O trabalho dirigido a um público muitas vezes obtém um impacto em outros. A extensão desse fenômeno é medida pela pesquisa e levada em consideração na distribuição de recursos para o esforço geral das Relações Públicas.

Os públicos tem sido comparados a alvos. Cada público pode ser corretamente considerado como um alvo das Relações Públicas. Difere, porém, do alvo em um ponto muito mais importante no sentido militar. O alvo militar, ao ser atingido, destruído ou posto fora de ação. No trabalho de RP, o alvo (ou público), ao ser atingido plena e eficientemente, torna-se um aliado que passa a auxiliar a tarefa das RRPP. Acionista, por exemplo, com quem se realiza uma campanha de RP bem sucedida, tudo fará para fomentar o apoio de outros indivíduos e de outros públicos.

O estudo da natureza do público em RP não constitui motivo de inquietação para a maioria dos autores de livros de Relações Públicas. Entre os escritores norte-americanos apenas Bertrand Canfield, Scott Cutlip, Allen Center e Harwood Childs, talvez porque voltados para os fundamentos psicossociológicos de RRPP, cuidaram do problema com certa profundidade, estabelecendo conceitos e diretrizes a respeito do público. A verdade é que muitos profissionais de Relações Públicas, afirmando um pragmatismo a si próprio conveniente, deixam de lado essa questão, como se o estudo da "matéria prima" de RP fosse uma diminuição para os seus altos conhecimentos práticos do assunto. Outros, porém, preocupam-se em procurar uma conceituação psicossociológica de público, como primeiro e fundamental passo para a compreensão e o êxito das atividades de RRPP. De qualquer maneira, existem anotações acerca do público, empíricas ou científicas, o que demonstra a necessidade de uma diligência maior em torno do problema.

Tem havido zelo por parte dos estudiosos de Relações Públicas em chamar a atenção para o fato de que não existe um só tipo de público. Em Paris, durante uma série de conferências, já em 1959, sob o tema Técnicas atuais de RRPP, L. Justet assim se expressou: "Pode-se dizer que as RRPP se dirigem ao público, ou mais exatamente aos dirigentes públicos. Com efeito, uma ideia a ser guardada nesta série de conferências, que não existe um público, mas uma pluralidade de públicos, um grande número de públicos que são, de tal forma, diferentes uns dos outros que falar a um, não quer dizer, que os outros possam compreender-nos.

Ibany da Cunha Ribeiro, na monografia Relações da Administração com o Público ( 1950), diz: " Logo, o público ‚ uma abstração, e o que realmente existe são diferentes públicos que devem ser isolados e tratados por processos diferentes, não só quanto a sondagens de opinião, como para a veiculação de informações, efetivação de trabalho educativo ou quanto ao atendimento geral".

Interessante observar que, nessa monografia, Ibany da Cunha Ribeiro ao empregar a palavra público quase sempre a usou entre aspas, como, por exemplo, nesta frase: "Como a ação da publicidade é de efeito lento no espírito humano para se conseguirem resultados mais rápidos e econômicos devem ser isolados os elementos componentes do "público" em grupos de interesses afins".

"Para fins de RRPP, pode-se considerar a cidade tendo, não apenas um tipo de público, mas vários, significando isto que há grupos com maiores e menores interesses em comum. Alguns dos tipos de públicos mais comuns, selecionados quase ao acaso, podem ser mencionados apenas à guisa de ilustração; contribuintes que poderão ser subclassificados de acordo com o imposto que pagam; grupos comerciais ou industriais; crianças em idade escolar; pais de crianças em idade escolar; grupos eclesiásticos; organizações de trabalho; pessoas que recebem assistência pública; pessoas que trabalham em centros de diversões; grupos raciais; funcionários da Municipalidade; pessoas à procura de empregos; credores e estabelecimentos financeiros; fornecedores da Municipalidade; consumidores de serviços públicos; e assim por diante, uma lista quase sem fim" (Instituto Brasileiro de Administração Municipal, Leituras de Administração Municipal).

Numa empresa, tradicional, ou mesmo organização/instituição, os públicos se dividem em:
1) PUBLICO INTERNO;
2) PUBLICO EXTERNO;
3) PUBLICO MISTO.

1. PÚBLICO INTERNO é o constituído pelo grupo de pessoas que trabalham diretamente na Empresa, instituição ou organização. Enfim, ‚ o grupo de pessoas que é capaz de gerir a Empresa, ou seja:

1.1. Funcionários em geral (proprietários, diretores, empregados, enfim, todo o pessoal da empresa.

2. PÚBLICO EXTERNO é conjunto de indivíduos que são segmentados por interesses comuns em relação à sociedade, e que, possam estar ligados direta ou indiretamente com uma Empresa, Instituição ou Organização. Entre estes segmentos podemos citar os seguintes:

* Acionistas da empresa;
* Associações de Classe;
* Comunidade em geral (população);
* Comunidade Vizinha;
* Concorrentes;
* Concorrentes (clientes, fregueses, pacientes, usuários etc);
* Entidades em geral;
* Fornecedores;
* Governo (Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário; Federal,
Estadual e Municipal);
* Imprensa (Rádios, Jornais, Televisões etc);
* Revendedores (Distribuidores etc);
* Sindicatos (Patronais, de Empregados, etc).

3. PÚBLICO MISTO é o que tem, simultaneamente, características de público interno e externo, entre estes podemos destacar os seguintes:

* Conselho de Acionistas;
* Família dos Funcionários:
* Prestadores de serviços ( que trabalham em empresa )

ENDOMARKETING OU RELAÇÕES PÚBLICAS COM CLIENTE INTERNO

ENDOMARKETING
RELAÇÕES PÚBLICAS COM O CLIENTE INTERNO


Prof. Dr. Sebastião Breguez



A palavra ENDOMARKETING hoje engloba todas as atividades empresariais que são realizadas no âmbito da Comunicação Interna. Ela atua como estratégia de aproximação funcionário-empresa e pode ser desenvolvida em qualquer ambiente organizacional de mudança e por instituições de todos os portes, sem exigir profundas ou onerosas transformações estruturais ou gerenciais.

A expressão surgiu como forma de alertas aos administradores que existe também o cliente-interno e que este também deve estar satisfeito com a empresa, suas metas, seu ambiente de trabalho, salário e relações interpessoais na empresa. O público interno deve estar satisfeito com o nível de informação que recebe nas transformações gerenciais em busca de qualidade e competitividade.

Saber ouvir, falar, expressar ou passar com eficiência uma norma ou uma informação é sempre tarefa difícil. Por isto, o trabalho da Comunicação Interna (Endomarketing ou Relações Públicas para Público Interno) atua com as seguintes estratégias:

  1. Criação e implantação (em conjunto com a Diretoria de Relações Humanas-RH) de Programas de Integração-Apresentação da Empresas – Aqui se trata de organizar programas internos de integração de equipes. Muitas empresas já fazem isto dentro do Programa de Qualidade Total. Organizam eventos dentro ou fora da organização com atividades diversificadas (culturais, esportivas, treinamentos e estudo) em que buscam a integração dos seus funcionários. Também é importante a apresentação da empresa para quem é novo e está chegando na organização. Normalmente as grandes empresas já fazem isto. Têm auditórios em que o funcionário é recebido, assiste a um filme institucional, recebe material informativo sobre a instituição como folhetos, folders, revistas e jornais.

  1. Reuniões da empresa – com várias finalidades e objetivos – Organizar com eficiência as reuniões da empresa – reuniões gerais, reuniões de avaliação, reuniões de treinamento, de planejamento ou confraternização – é muito importante para se ter qualidade. As informações devem ser passadas com precisão e qualidade.

  1. Festividades diversas (Natal, Ano Novo, Páscoa e outras)– Toda empresa deve organizar as festividades como forma de integração, entretenimento e lazer para os funcionários. Estas confraternizações ajudam no equilíbrio interno e fortalecem a coesão grupal.

  1. Dias Alusivos – Datas importantes como Dia da Secretária, Dia do Operário, Dia do Médico etc devem ser lembradas como forma de criar um clima agradável, saudável e descontraído dentro das organizações.

  1. Distintivos e Homenagens – São usados como forma de valorizar pessoas e grupos dentro da empresa. Assim, a organização deve escolher os distintivos e homenagens que deve fazer a cada ano e cada mês de acordo com sua organização interna e necessidade.

  1. Cumprimentos (Aniversários, casamentos, nascimentos etc) – São muito usados como forma de integrar e valorizar os funcionários e melhorar a qualidades das relações interpessoais na empresa.

  1. Concursos internos;Visitas (Open-House) – A organização de concursos internos também atua como forma de valorização do funcionário. Concursos literários, esportivos, culturais e filantrópicos ajudam a crescer e integrar as equipes. Também as visitas internas de um setor a outra ou de uma filial a outra.

  1. Colaboração e na implantação (em conjunto com o DRH e Assessoria de Comunicação) de Programas de Comunicação Interna (Boletim, Relatório, Folheto, Áudio-visual, mensagens, discursos, correspondências etc) – A Comunicação Interna é suma importância para o funcionamento da empresa. Passar as informações necessárias com eficiência, rapidez e qualidade para que todas as equipes funcionem adequadamente aumentando o desempenho empresarial nos negócios. Esta deve ser preocupação primordial dentro do planejamento da empresa. Para isto, as organizações mantém uma Assessoria de Comunicação com profissionais de Relações Públicas, Jornalismo, Publicidade e Marketing. Quanto maior a empresa, maior deve ser o seu investimento na comunicação e sistema de informação.

Enfim, quando a empresa caminha em busca da qualidade interna, ela deve re-estruturar seu sistema de comunicação para atender também o público interno (cliente-interno). A comunicação hoje é uma ferramenta estratégica para o bom desempenho dos negócios. Ai está a razão do seu sucesso.

MARKETING E RELAÇÕES PÚBLICAS



Marketing e Relações Publicas
INSTRUMENTOS DAS RELAÇÕES PÚBLICAS
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Prof. Dr. Sebastião Breguez



"Toda empresa deve ser transparente, falar sempre a verdade, se falar a verdade pode prejudicar a empresa, que se mude a empresa".
Ivy Lee, o pai das Relações Públicas


As Relações Públicas (RRPP), no composto de Comunicação Organizacional e Marketing,  têm por instrumentos todos os meios e agentes que servem às comunicações, desde o mais informal e simples dos contatos humanos diretos até às técnicas apuradas dos modernos veículos de comunicação de massa.

O objetivo é sempre trabalhar a imagem da empresa, da organização (política, social, cultural, humanitária, religiosa, filosófica, etc.) e das pessoas (o político, por exemplo).

As RRPP têm o poder de criar a imagem da organização (quando a organização é nova e não tem imagem formada Opinião Pública) através de um trabalho sistemático de Comunicação Dirigida. Têm Também o poder de mudar a imagem da organização (quando esta passa por desgaste ou arranhões da imagem por algum motivo). As Relações Públicas podem ainda melhorar a imagem da organização, quando se faz necessário e, para isto, utilizam-se de técnicas especiais de persuasão, lobby, campanhas em veículos de comunicação (jornal/rádio/TV etc.) Tudo isto dentro dum projeto de Comunicação Integrada em que trabalham juntos jornalistas/publicitários/RP.

São os instrumentos das Relações Públicas:
1) As Comunicações Individuais
2) As Comunicações nas Empresas
3) As Comunicações de Massa
4) E os Instrumentos Específicos


1) COMUNICAÇÕES INDIVIDUAIS
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1.1. Audição....................................... COMO APRENDEMOS ?
1.2. Escrita......................................... 1,0% através do gosto
1.3. Fala.............................................. 1,5% através do tato
1.4. Leitura.......................................... 3,5% através do olfato
1.5. Mímica.......................................... 11 % através da audição
1.6. Visão............................................. 83 % através da visão
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A neurolinguística nos ensina que, na comunicação interpessoal, o poder de convencimento da palavra não passa de 7%; o tom de voz representa 38% e a fisiologia (toda a expressão do corpo) 55%. Isto significa que a postura corporal e a forma de falar influenciam as pessoas. Impõe-se também o máximo de observância entre o gesto e o comando verbal. Muitas vezes, a pessoa revolta-se porque suas instruções não são cumpridas e não entende o porque disto acontecer. É
Que faltou expressividade no semblante, cintilação nos olhos, firmeza no falar, atributos indispensáveis à plena realização dos objetivos da comunicação.

2) COMUNICAÇÃO NAS EMPRESAS

Podemos utilizar uma série de instrumentos para realizar uma comunicação eficiente nas empresas. Pode-se citar, entre outros instrumentos, os seguintes:

Álbuns, Atas de Reuniões, Audiovisuais, Boletins, Cartas, Caixas de Sugestões, Croquis, Cartazes, Catálogos, Circuito Interno de TV, Circulares, Comunicação Visual. Conferências, Contatos Pessoais Formais ou Informais, Cursos, Desenhos, Displays, Entrevistas, Faixas, Filmes, Folders, Folhas de Pagamento, Folhetos, Fotografias, House-Organ ou Journal de Empresa, Impressos, Informática, Informativos, Interfones, Jornal Mural, Lay-out, Mala Direta, Memória da Empresa, Normas (Manual de...) Ofícios, Ordens de Serviço, Painéis, Palestras, Programação Visual, Projetos, Quadros de Avisos, Relatórios Anuais, Reuniões, Seminários, Sirenes, Sistema de Sonorização (Autofalantes), Telefones, Telegramas, Telex, Telefax, Treinamentos, etc.

3) COMUNICAÇÃO DE MASSA

Quando o objetivo é atingir um público maior, em uma grande área geográfica pode-se utilizar os meios de massa. Veja exemplos abaixo:

Cinemas, Jornais, Rádios, Revistas e Televisões. Estes meios de Comunicação de Massa são chamados de Mídia na linguagem publicitária. E podem ser utilizadas para inserção de mensagens, em forma de anúncio ou não, direcionadas ao nosso público alvo.

4) INSTRUMENTOS ESPECÍFICOS

As RRPP também têm seus instrumentos específicos de trabalho que são:

4.1. Promoção de Eventos
4.2. Jornal de Empresa ou House-Organ, Revista
4.3. Relatórios Anuais
4.4. Filmes Institucionais ( de curta duração, 10 a 15 minutos ) Para serem apresentados no auditório da empresa ou organização.

OBS: A sigla RRPP designa a profissão de Relações Públicas. Já a sigla RP designa o profissional de Relações Públicas.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

MEGATRENDS 2030 - AS MUDANÇAS GLOBAIS DO MUNDO ATÉ 2030



MEGATRENDS 2030



Global Trends 2030 -Alternative Worlds (Tendências mundiais 2030: novos mundos possíveis)

Tradução de Sebastião Breguez do relatório em francês, jornal Le Monde, Paris, França).

Divulgado documento elaborado para CIA norte-americana para Barak Obama sobre a situação do mundo até 2030.  O documento confidencial que o presidente Barack Obama encontrou na sua mesa de trabalho na Casa Branca no passado dia 21 de janeiro 2013, ao tomar posse do seu segundo mandato, foi publicado com o título: Global Trends 2030 -Alternative Worlds (Tendências mundiais 2030: novos mundos possíveis). 




Quatro pontos principais são abordados no documento:
·        Libertação do indivíduo em busca de novas experiências;
·        Mudanças Demográficas e populacionais a nível mundial;
·        Dispersão da potencia militar dos países mais desenvolvidos atualmente (EUA, França, Inglaterra etc)  (distribuição de força);
·        Problemas ambientais como aumento das catástrofes naturais, crise de energia, falta de água e alimentos

RESUMO

11) As condições climáticas serão caracterizadas por forte aumento das catástrofes naturais como enchentes, secas, tornados e furacões, ondas de frio ou calor e subida do nível do mar.  O mundo viverá estas turbulências com maior frequencia e intensidade.

  2)  A agricultura e a produção de alimentos serão afetadas pelas mudanças climáticas. Estudos científicos recentes mostram que, atualmente, as anomalias de temperatura durante as estações de crescimentotêm afetado a produtividade agrícola.

  3) A  população mundial deverá aumentar para 8,3 bilhões em 2030 (atualmente 7,1 bilhões, 2012). Três tendências irão dominar as mudanças demográficas em nível global: o envelhecimento da população e, consequente, diminuição do número de jovens, o aumento da migração e urbanização rápida (pessoas mudando para as cidades, abandonando o campo). Prevê-se aumento das contribuições previdenciárias, elevação da idade da aposentadoria, redução de pensões, busca de previdência particular e seguro saúde privado em virtude da falência do sistema governamental.

A principal constatação é: o declínio do Ocidente. Pela primeira vez desde o século XV, os países ocidentais estão a perder poder face à subida das novas potências emergentes. Começa a fase final de um ciclo de cinco séculos de dominação ocidental do mundo. Ainda que os Estados Unidos continuem a ser uma das principais potências planetárias, perderão a sua hegemonia econômica a favor da China. E já não exercerá a sua “hegemonia militar solitária” como o faz desde o fim da Guerra Fria (1989). Caminhamos para um mundo multipolar no qual novos atores (China, Índia, Brasil, Rússia, África do Sul) têm como vocação constituir sólidos polos continentais e disputar a supremacia internacional a Washington e aos seus aliados históricos (Japão, Alemanha,Reino Unido, França).

Para ter uma ideia da importância e da rapidez da decadência ocidental que se avizinha, basta assinalar estes dados: a parte dos países ocidentais na economia mundial vai passar dos atuais 56% para cerca de 25% em 2030... Ou seja, em menos de vinte anos, o Ocidente perderá mais de metade da sua preponderância econômica... Uma das principais consequências disto é que os Estados Unidos e os seus aliados já não terão provavelmente os meios financeiros para assumir o papel de polícias do mundo... De tal modo que esta mudança estrutural (somada à profunda crise econômico-financeira atual) poderá conseguir o que nem a União Soviética nem a Al Qaeda conseguiram: debilitar durante muito tempo o Ocidente.

Segundo este relatório, a crise na Europa durará pelo menos um decênio, isto é, até 2023... E, sempre segundo este documento da CIA, não é seguro que a União Europeia consiga manter a sua coesão. Enquanto isso se confirma a emergência da China como a segunda economia mundial e com vocação para se converter na primeira. Ao mesmo tempo, os demais países do grupo chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul) instalam-se em segunda linha competindo diretamente com os antigos impérios dominantes do grupo JAFRU (Japão, Alemanha, França, Reino Unido).

Em terceira linha, aparece agora uma série de potências intermédias, com demografias em alta e fortes taxas de crescimento econômico, chamadas a se converter também em polos hegemônicos regionais e com tendência a se transformar num grupo de influência mundial, o CINETV (Colômbia, Indonésia, Nigéria, Etiópia, Turquia, Vietnã).

Mas de hoje a 2030, no Novo Sistema Internacional, algumas das maiores coletividades do mundo já não serão países, mas comunidades congregadas e vinculadas entre si pela internet e pelas redes sociais. Por exemplo, ‘Facebooklândia’: mais de um bilhão de usuários... Ou ‘Twitterlândia’, mais de 800 milhões... Cuja influência, na “guerra dos tronos” da geopolítica
mundial, poderá revelar-se decisiva. As estruturas de poder esmaecer-se-ão graças ao acesso universal à rede e ao uso de novas ferramentas digitais.

A este respeito, o relatório da CIA anuncia o aparecimento de tensões entre os cidadãos e alguns governos numa dinâmica que vários sociólogos qualificam de ‘pós-políticas’ ou ‘pós-democráticas’... Por um lado, a generalização do acesso à rede e a universalização do uso das novas tecnologias permitirão à cidadania atingir altas quotas de liberdade e desafiar os seus representantes políticos (como durante as primaveras árabes ou na crise dos “indignados”). Mas, ao mesmo tempo, segundo os autores do relatório, estas mesmas ferramentas eletrônicas proporcionarão aos governos “uma capacidade sem precedentes para vigiar os seus cidadãos”.

“A tecnologia – acrescentam os analistas de Global Trends 2030 – continuará a ser o grande nivelador, e os futuros magnatas da internet, como poderá ser o caso do Google e do Facebook, possuem montanhas de bases de dados, e manejam em tempo real muito mais informação que qualquer governo”. Por isso, a CIA recomenda à administração dos Estados Unidos que faça frente a essa ameaça eventual das grandes corporações da internet ativando o Special Collection Service, um serviço de espionagem ultra-secreto – administrado conjuntamente pela NSA (National Security Service) e o SCE (Service Cryptologic Elements) das Forças Armadas – especializado na captação clandestina de informações de origem eletromagnética. O perigo de que umgrupo de empresas privadas controle toda essa massa de dados reside, principalmente, em que poderia condicionar o comportamento em grande escala da população mundial e inclusive das entidades governamentais. Também se teme que o terrorismo jihadista seja substituído por um ciberterrorismo ainda mais surpreendente.

A CIA toma tão a sério este novo tipo de ameaças que, eventualmente, o declínio dos Estados Unidos não terá sido provocado por uma causa externa,mas por uma crise interna: o colapso econômico ocorrido a partir de 2008. O relatório insiste em que a geopolítica de hoje deve interessar-se por novos fenômenos que não possuem forçosamente um carater militar. Pois, ainda que as ameaças militares não tenham desaparecido (veja-se as intimidações
armadas contra a Síria ou a recente atitude da Coreia do Norte e o seu anúncio de um possível uso de armas nucleares), os perigos principais que ocorrem hoje nas nossas sociedades são de ordem não militar: mudança climática, conflitos econômicos, crime organizado, guerras eletrônicas, esgotamento dos recursos naturais...

Sobre este último aspecto, o relatório indica que um dos recursos que mais aceleradamente se está a esgotar é a água doce. Em 2030, cerca de 60% da população mundial terá problemas de abastecimento de água, dando lugar ao aparecimento de “conflitos hídricos”... Quanto ao fim dos hidrocarbonetos, a  CIA mostra-se, pelo contrário, bem mais otimista que os ecologistas. Graças às novas técnicas de fraturação hidráulica, a exploração do petróleo e do gás de xisto está a atingir níveis excepcionais. Os Estados Unidos já são autossuficientes em gás, e em 2030 sê-lo-ão em petróleo, o que embaratece os seus custos de produção manufatureira e exorta à relocalização das suas indústrias. Mas se os Estados Unidos – principal importador atual de
 hidrocarbonetos– deixar de importar petróleo, é de prever que os preços caiam significativamente. Quais serão então as consequências para os atuais países exportadores?

No mundo para que vamos, cerca de 60% das pessoas viverão, pela primeira vez na história da humanidade, nas cidades. E, como consequência da redução acelerada da pobreza, as classes médias serão dominantes e triplicar-se-ão, passando de 1.000 para 3.000 milhões de pessoas. Isto, que em si é uma revolução colossal, acarretará como sequela, entre outros efeitos, uma mudança geral nos hábitos culinários e, em particular, um aumento do consumo de carne à escala planetária. O que agravará a crise ambiental. Porque multiplicar-se-á a criação de gado, de porcos e de aves; e isso supõe um aumento do gasto de água (para produzir alimentos), de pastos, de adubos e de energia, com repercussões negativas em termos do efeito de estufa e do aquecimento global...

O informe da CIA anuncia também que, em 2030, os habitantes do planeta serão 8.400 milhões, mas o aumento demográfico cessará em todos os continentes menos em África, com o consequente envelhecimento geral da população mundial. Pelo contrário, o vínculo entre o ser humano e as tecnologias de prótese acelerará a criação de novas gerações de robôs e o aparecimento de super-homens” capazes de proezas físicas e intelectuais inéditas.

O futuro é poucas vezes previsível. Não é por isso que há que deixar de o imaginar em termos de prospectiva, preparando-nos para atuar perante diversas circunstâncias possíveis, das quais uma só se produzirá. Ainda que já  tenhamos advertido que a CIA tem o seu próprio ponto de vista subjetivo sobre a marcha do mundo, condicionado pelo prisma da defesa dos interesses
norte-americanos, o seu relatório tetranual não deixa de constituir uma ferramenta extremamente útil. A sua leitura ajuda-nos a tomar consciência das rápidas evoluções em curso e a refletir sobre a possibilidade de cada um de nós para intervir e para fixar o rumo. Para construir um futuro mais justo.
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