sexta-feira, 3 de junho de 2016

MULHER, UM ESTUDO MERCADOLÓGICO


MULHER, UM ESTUDO MERCADOLÓGICO

MULHER, SEGMENTO DO CONSUMO
 

Autoconfiante, independente, sensível, voltada para o próximo e espiritualizada. A mulher moderna é um agente de mudanças multifacetado que tem assumido cada vez mais responsabilidades. Há quem diga que ela é a alma do terceiro setor e que, quando investimos em sua educação, estamos na verdade investindo na formação da família inteira. É inegável que os novos papéis femininos estão transformando as relações de trabalho e de consumo, deixando marcas irreversíveis na estrutura da sociedade. A mulher do século XXI é resultado de uma história de lutas, conquistas e revoluções sociais.

Muitos desafios foram superados em todo o mundo: só em 1827 aprovou-se no Brasil a lei para as mulheres frequentarem a escola elementar e, em 1879, para estudarem em instituições de ensino superior, locais em que ainda eram alvo de críticas e ridicularização. Em 1893, na Nova Zelândia, tiveram pela primeira vez direito ao voto; para a cidadã brasileira o voto só foi promulgado em 1932. O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, foi instituído em referência a um episódio ocorrido em 1857 em Nova York: 129 operárias morreram queimadas numa ação policial por reivindicar a redução na jornada de trabalho, de 14 para 10 horas, e o direito à licença-maternidade.

Muita coisa mudou desde que Leila Diniz posou grávida de biquíni, irritando algumas camadas da sociedade brasileira nos anos 1960. Naquela década, a mulher passava em média 1 hora por dia na cozinha. Hoje, são 17 minutos. Na década de 1940, a brasileira tinha em média 6,2 filhos; hoje, tem 2,3 filhos (dados do Censo 2000). A família tradicional, patriarcal e nuclear, está sendo substituída por novas composições. Em 2000, o Censo Demográfico verificou que 24,9 por cento dos domicílios brasileiros tinham mulheres como responsáveis. E o casamento, instituição considerada sagrada pelos mais conservadores, parece não ser uma prioridade para muitas delas até os 30 anos: a idade média da mulher ao casar foi de 27,2 anos em 2003.

Mesmo a mulher que cuida da família e da casa já não é mais a mesma. Dados da empresa de pesquisa Perspektiva — Tendências, Cenários e Estratégias mostram que elas têm assistido menos à televisão e incorporado hábitos próprios da ‘geração Internet’: 29 por cento jogam games no computador e 24 por cento baixam músicas pela Web. Tudo isso tem se refletido nas atividades domésticas. Uma pesquisa realizada pela A. C. Nielsen em 2004 aponta que, no passado, as consumidoras estavam preocupadas com a limpeza do lar, adquirindo basicamente desinfetantes e produtos multiuso. Hoje em dia buscam limpadores perfumados, com fragrâncias diferenciadas, e produtos com formulações mais leves, que minimizam o esforço na hora da limpeza e são menos agressivos à pele. Em 2005, o Ibope Solution apresentou os resultados de uma investigação encomendada pelo Grupo Abril sobre ‘As mulheres do novo século’, traçando um perfil das brasileiras das classes A e B nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Os resultados mostram que as mulheres parecem estar mais interessadas no desenvolvimento profissional e desejam encontrar equilíbrio emocional e espiritual. A grande maioria acredita que é preciso ter uma carreira e ser financeiramente independente. Suas perspectivas para o futuro são de que haverá mais mulheres morando sozinhas, os casais terão menos filhos e os casamentos vão durar menos tempo. As características mais valorizadas nos homens são companheirismo, responsabilidade e fidelidade. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo datada de março de 2005, apesar de todas essas mudanças de comportamento, elas ainda são essencialmente românticas.

Um indício curioso é a venda de romances populares. Títulos água-com-açúcar como Júlia, Sabrina e Bianca vendem até 4 milhões de exemplares por ano (57 por cento das leitoras são solteiras e 40 por cento têm entre 20 e 29 anos). Essas informações podem ser complementadas com os achados da pesquisa sobre hábitos e comportamentos femininos (LatinPanel), realizada em parceria com a revista SuperHiper em 2004. Das 25 mil entrevistadas, 35 por cento trabalhavam fora, 25 por cento eram chefes de família e, desse total, 94 por cento também eram responsáveis pelos afazeres domésticos. Em 80 por cento dos casos, eram elas que ficavam com a decisão na hora de comprar.

De acordo com a pesquisa, a maior parte das compras é feita pela mulher, e muitas vezes ela é a chefe de família e arca com as principais despesas da casa. Por tradição, é a mulher quem compra para a família, incluindo os produtos de uso pessoal do marido e dos filhos. Por ser mais organizada e paciente, ela é mais atenta aos detalhes. Com a idade, a consumidora se torna mais tradicionalista em suas escolhas, isso até pelo seu perfil de chefe de família. Para as que têm até 29 anos, a cesta de higiene é a que concentra a maior parte dos gastos (18,8 por cento), e o mesmo ocorre com a faixa entre 30 e 39 anos (26,3 por cento).

Nas faixas etárias mais avançadas (de 40 a 49 anos e 50 anos ou mais) a preferência se distribui entre as cestas de alimentos, higiene pessoal, limpeza do lar e bebidas não alcoólicas. Os fatores que determinam a seleção de uma loja varejista por uma mulher variam de acordo com a classe social: o preço é o principal atributo para as classes mais abastadas, ao passo que qualidade e frescor o são para as classes menos favorecidas.

Algumas características comportamentais femininas foram discutidas pelo Programa de Administração de Varejo (Provar) da USP em 2002, que afirmou que a mulher é mais paciente ao encarar filas, demora mais para escolher um objeto, se deixa seduzir pelo aroma dos produtos e gosta de companhia ao sair para gastar. Ela também apresenta mais consciência ecológica — 55 por cento pensam na questão ao escolher um produto.

Tamanha alteração comportamental e diversidade em relação aos homens têm causado uma verdadeira revolução mercadológica, levando as lideranças empresariais a desenvolver produtos que agreguem valor para as mulheres. Chapinha com duração de seis meses, alongamento rápido para os cabelos, impressora de estampas personalizadas para as unhas, modelos de celular com tabelas de calorias e ciclo menstrual, seguros específicos para diagnóstico de câncer de mama e ovário, computadores com acessórios coloridos são exemplos de produtos inovadores voltados especificamente para elas. As mulheres, inclusive, são alvo das mais variadas estratégias corporativas na atualidade. A Renner, uma das maiores redes de lojas de departamentos, definiu em 1992 um reposicionamento de sua marca com foco no público feminino. Levantamentos direcionaram o atendimento: a empresa constatou que as clientes querem ter tempo para olhar as peças de roupa e preferem elas mesmas solicitar apoio dos vendedores quando precisam. A Renner distribuiu espelhos e caixas curvos nas lojas, fazendo jus à ideia de que a mulher gosta de se olhar e se identifica com formas curvilíneas e orgânicas. Sua estratégia bem-sucedida se refletiu nos setores masculinos das lojas, que também passaram a ser dominados pelas mulheres: 70 por cento das gravatas são compradas por elas.

Outro exemplo é o da linha Eletrolux Super, que combina conveniência, praticidade, tecnologia e novas tendências em design. A Eletrolux descobriu que descongelar a geladeira é uma das tarefas mais árduas para a manutenção do produto na opinião da consumidora. Por isso, na Linha Eletrolux Super, os refrigeradores são frost-free ou possuem o degelo mágico, isto é, para descongelar basta acionar o botão de degelo, sem a necessidade de desligá-los. Assim, percebe-se que o novo perfil do público feminino tem reverberado em diversos setores econômicos, tanto naqueles tradicionalmente relacionados ao dia a dia da mulher, como naqueles tipicamente voltados aos homens.

Apesar dos produtos segmentados, o movimento feminino em direção ao universo masculino parece ser maior do que o contrário. As consumidoras não estão mais restritas ao consumo de cosméticos, bijuterias e itens domésticos. Elas são cada vez mais influentes nas decisões de compra de carros e imóveis (Tabela 2), apesar de ainda desconhecerem alguns setores, como o de tratores e pisos e azulejos (Tabela 3). A despeito da imagem de consumistas com a qual são frequentemente identificadas, apresentam um comportamento mais racional na hora da compra.

Uma pesquisa da Volkswagen em 2002 revelou que elas são mais racionais ao comprar um carro, dando prioridade à funcionalidade e segurança do veículo. Apesar de rejeitarem automóveis desenvolvidos especialmente para o público feminino, como mostrou o fracassado lançamento do Fusca Lady na década de 1980, preferem carros equipados com acessórios que beneficiem suas características pessoais. Assim, escolhem automóveis com bancos dianteiros reguláveis para ajustar a altura e com tecidos lisos para não desfiar as meias finas, direção hidráulica, vidros elétricos, porta-objetos, botões que evitam a quebra das unhas, trava nas portas e amplo espaço interno para acomodar as crianças.

As mulheres seguem melhor as recomendações do fabricante, costumam ler os manuais de proteção e preocupar-se com os cuidados necessários ao veículo, além de usar mais a rede de concessionárias. O entendimento da alma feminina pode ser um fator-chave de sucesso para as organizações que desejam acompanhar tendências e descobrir o comportamento de seus consumidores. No decorrer da história, a mulher tem rompido com inúmeros paradigmas, influenciando a sociedade e sendo influenciada por ela em diversos aspectos, que vão desde sua inserção no mercado de trabalho até o boom das clínicas de fertilização — recentemente, uma delas viabilizou uma gravidez aos 67 anos. De maneira geral, podemos dizer que a mulher moderna trata de sua beleza interior e exterior, busca atualização e investe em sua formação, cuidando cada vez mais de si mesma.

FONTES: Raquel Bocato, “Núcleo doméstico muda e une de enteados a avós”, Folha de S.Paulo, 8 mar. 2005; Fabiana Futema. “Mulher influencia 72% das compras de carros no país”, Folha Online, 6 mar. 2002; “Mulher prefere carro com espelho para retocar maquiagem, diz pesquisa”, Folha Online, 6 mar. 2002; “Mulheres são mais cuidadosas com o trânsito e com o veículo”, Folha Online, 6 mar. 2002; Adriana Mattos e Fátima Fernandes. “Demorada, mulher gasta mais no supermercado”, Folha Online, 25 ago. 2002.

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