quarta-feira, 13 de agosto de 2014

HISTÓRIA DOS PRODUTOS

HISTÓRIA DOS PRODUTOS






 
 
   As histórias protagonizadas pelas empresas que desbravaram novos mercados no Brasil. Quase sempre, elas colheram as glórias de serem as primeiras, e hoje são líderes em seus segmentos


A história dos primeiros produtos fabricados no mundo, os chamados pioneiros, que ajudaram a desbravar a indústria brasileira, daria uma verdadeira saga, matizada com nuances de paixão pela novidade, disposição de correr altos riscos e principalmente coragem em propor mudanças de hábito em toda uma sociedade. No Brasil, o protagonista desta novela mercadológica bem que poderia ser o Sul América, o primeiro papel higiênico fabricado no País. Nos dias de hoje, não há quem discuta sobre a necessidade do uso de tal produto. Em 1928, porém, a Melhoramentos precisou oferecer os rolos nas farmácias, escondidos em embalagens hermeticamente fechadas e sem qualquer rótulo. Tabu na época, o papel higiênico era pedido aos sussurros pelos consumidores, que tinham medo de ser vistos comprando a mercadoria proibida.

Casos semelhantes, que não são mera coincidência, ocorreram no passado com outros itens de higiene, como o absorvente feminino Modess, lançado em 1933, a lâmina de barbear da Gillette em 1926, e os sabonetes Lever, de 1932, mais tarde rebatizados de Lux. Na tentativa de abrir caminho, os fabricantes desses produtos chegaram a treinar um batalhão de senhoras da alta roda da sociedade, instruídas a falarem sobre as maravilhas do papel higiênico e do absorvente descartável diante de uma platéia de consumidores em potencial. A Unilever, por sua vez, precisou criar o conceito do “sabonete das estrelas”, como apelo para ganhar um mercado em que o sabão em barra, até por custar mais barato, ainda não tinha sido definitivamente substituído na hora do banho.

Já o Senhor Gillette foi obrigado a estampar o próprio rosto na embalagem do produto, bem como imprimir abaixo a assinatura de próprio punho, na tentativa de convencer seus conterrâneos das vantagens de se barbearem em casa, e não nas barbearias, como era o costume na época. Mais de um século depois da invenção do gilete, que acabou se tornando o sinônimo dessa categoria de produtos no Brasil, foi anunciada na semana passada a venda da empresa para a gigante Procter & Gamble, pela bolada de US$ 57 bilhões. Também a Johnson & Johnson mantém-se nas primeiras posições no disputadíssimo segmento dos absorventes femininos, com a marca Sempre Livre, o primeiro absorvente aderente à calcinha lançado no País. “Quem lança novo produto está sempre entrando numa aventura, mas conta com um diferencial competitivo grande. Sendo o primeiro, o concorrente vai ser sempre o segundo, aquele que copiou uma idéia”, defende Sidney Porto, do Instituto Popai, especializado em varejo.

Da mesma forma, a Melhoramentos continua líder disparada no mercado brasileiro de papel higiênico com as marcas Sublime e Soft. Até hoje, o produto é o carro-chefe da empresa, que foi também precursora na produção de livros didáticos, com “O Patinho Feio” (1915), de confetes e serpentinas (1919) e de mapas cartográficos (1922). Seu faturamento passou de R$ 430 milhões em 2003. “Tudo começou de maneira carnavalesca, com o objetivo de aproveitar a ociosidade da máquina de fabricar serpentina, que era usada apenas nos primeiros meses do ano. Mandou-se então alargar a ‘bitola’ das engrenagens na largura do papel higiênico. O papel era importado dos Estados Unidos e agradou à classe média, que ainda usava a folha de jornal como alternativa”, rememora diretor jurídico da Melhoramentos, Accácio de Jesus, que começou a trabalhar na empresa como office-boy, há 61 anos.

Para fazer frente à resistência inicial ao seu papel higiênico, a Melhoramentos chegou a treinar um batalhão de senhoras para falar sobre as “maravilhas” do produto.
 
 
Sucesso exige atualização

Lançar um produto no mercado não garante a liderança, como mostram os exemplos das indústrias de eletroeletrônica e veículos. Nos alimentos, é mais fácil permanecer no pódio

Nem todos os lançamentos de produtos se revelam uma história de sucesso e terminam com um final feliz. A realidade é ainda mais cruel no mundo contemporâneo, em que 80 mil novas marcas são jogadas todo ano no mercado, só nos Estados Unidos. É uma situação bem diferente em relação ao início do século passado, quando se passaram impensáveis 12 anos entre a invenção da lata de conservas e a do abridor de latas. Antes disso, era preciso ralar a lata no chão ou correr riscos de se ferir abrindo a embalagem com uma ponta de faca afiada.

Na indústria alimentícia, é relativamente mais fácil permanecer no pódio, explica o consultor Mauro Calixta, doutor em Marketing pela USP. “Para alguns tipos de produtos, como o alimento, o principal ingrediente é o afeto. Não é à toa que costumamos reunir a família em torno da mesa e chamamos os amigos para tomar uma cerveja ou sair para jantar. Já os produtos com tecnologia muito elevada, como os eletroeletrônicos, têm de se manter atuais e continuar antecipando tendências para se manter na liderança.” Ele cita como exemplo a japonesa Panasonic, que estrategicamente espera a Sony se arriscar lançando seus brinquedinhos tecnológicos no mercado e só adquire a patente com a aceitação em massa do produto.

Dos primeiros alimentos fabricados, porém, o consumidor nunca se esquece. A explicação é que eles geram um vínculo afetivo com o consumidor, criando um padrão a ser seguido de textura do alimento, sabor e até de embalagem. É o caso típico da Maizena, comercializada no Brasil há 130 anos e que, há cerca de 75 anos, passou a ser fabricada no País. Se um concorrente resolver lançar, por hipótese, um amido de milho dentro de uma lata redonda de alumínio, o consumidor certamente vai se recusar a comprá-lo. Ele se acostumou a identificar o produto nas prateleiras pela caixa de papelão no formato retangular, em tom amarelo forte. “A caixa amarela é a nossa marca registrada e temos de ficar sempre atentos aos concorrentes, que tentam copiar a embalagem. A tradição é o maior diferencial da Maizena”, afirma Fernanda Tamate, gerente de Produtos Maizena, que responde por 87% do mercado brasileiro de derivados de milho.

É uma realidade oposta à dos eletroeletrônicos, que enfrentam a maior diversidade de marcas trazidas pela globalização. Os aparelhos acabaram se tornando bastante parecidos entre si, o que tornou mais difícil a tarefa de identificá-los com rapidez – saber, por exemplo, se determinado aparelho foi fabricado pela GE, a marca mais poderosa do mundo, ou talvez pela Philips ou a Sony. “A capacidade de imitação dos produtos explodiu com os mercados mais competitivos. Basta dizer que não somos capazes de identificar nem mesmo os modelos de automóveis, em um primeiro contato”, diz Calixta.

Fundada em 1942, a Sociedade Eletro Mercantil Paulista (Semp) foge um pouco a essa regra. É dela o primeiro rádio totalmente produzido no Brasil, datado de 1942. Em 1951, a empresa brasileira associou-se à japonesa Toshiba para lançar, com exclusividade, o primeiro televisor em preto e branco. O empreendimento mostrou-se lucrativo, já que cada aparelho custava o preço de um Fusca, naquela época. Em 1972, a Semp Toshiba tornou a sair na frente com a tevê em cores. “Eu não pensava que a televisão iria se tornar tão popular no Brasil. No início, o sinal só existia nas capitais e o aparelho não tinha toda essa divulgação, como tem hoje”, confessa o técnico Dariuche Iazdi, hoje gerente de serviços da rede nacional da Semp. Ele trabalha há 40 anos na empresa.

Para lançar um produto de alta tecnologia, como o automóvel, é preciso de uma boa dose de coragem e, essencialmente, de investimentos de grande porte. Foi o que levou à morte o primeiro carro fabricado no Brasil, a Romi-Isetta. Em três anos, estava encerrada a linha de produção, com apenas 3 mil unidades. É que, além de ter um design exótico, o carro ficou caro demais diante da Vemaguete, bancada com subsídios do governo por intermédio do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia), criado em 1956 pelo presidente Juscelino Kubistchek com o objetivo de instalar a indústria de automóveis no País.

"A capacidade de imitação dos produtos explodiu com os mercados mais competitivos, sobretudo a partir dos anos 90" - Mauro Calixta, doutor em Marketing pela USP


Análise da notícia

Com idéias brasileiras ou não, a saga dos empresários que primeiro lançaram produtos que passaram a fazer parte de nossa vida, a ponto de não conseguirmos imaginá-la sem o conforto que proporcionam, é rica em experiências e ensinamentos. A coragem, a persistência, a fé inabalável na própria capacidade de vencer são ingredientes óbvios. Mas não são os únicos. E o que eles mais revelam é o incontestável espírito empreendedor do empresário e a abertura às novidades do consumidor brasileiro, disposto até mesmo a rápidas e definitivas mudanças de hábito. Em resumo, trata-se de um potencial que a visão curta de nossos governantes não tem sido capaz de estimular. A mesma visão que os leva aplicar carga tributária sufocante, misturada a uma política de juros capaz de desencorajar os criativos e falir os insistentes. Não foi bem isso que fazem os países que se consolidam na liderança do desenvolvimento.
 
Vemaguete
Em 1953, a fabricante de motocicletas ISO lançou o seu primeiro automóvel na Itália. Com uma única porta, que abria pela frente, o carrinho parecia exótico diante dos modelos da Ford, lançados no início do século. Em setembro de 1956, a Romi, tradicional indústria de máquinas operatrizes de São Paulo passa a fabricar a Romi-Issetta no Brasil, sob licença da italiana ISO. Primeiro veículo brasileiro, o Romi-Isetta não é aceito oficialmente como sendo um carro pelo Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia), criado em 1956 pelo presidente Juscelino Kubistchek com o objetivo de instalar a indústria de automóveis no País. Em novembro daquele ano, a Vemag lança a perua DKW, mais conhecida como Vemaguete e, em 1957, a Kombi. Dois anos depois, surge o VW 1200, logo apelidado de besouro ou “fusquinha” (possível corruptela de Volks).

Modess
Até os anos 50 as mulheres brasileiras usavam incômodas toalhinhas higiênicas com a chegada da menstruação, que traziam problemas práticos (o que fazer com a toalhinha usada?, Onde secar fora das vistas indiscretas?). Em 1933, a Johnson & Jonhson começou a comercializar no Brasil o absorvente higiênico Modess, inicialmente importado dos Estados Unidos e, a partir de 1945, fabricado aqui mesmo. Com o mercado ainda inexplorado, a empresa criou uma "conselheira feminina", com o nome de Anita Galvão. Ela respondia cartas de fãs pedindo conselhos íntimos, ligados a questões do "tabu", já que “moça de família nunca ficava menstruada”. Após abrir caminho, a Johnson lançou o Sempre Livre em 1974, o primeiro absorvente aderente e, naquele mesmo ano, o absorvente interno OB.

Cotonetes

O conceito de cotonete, que no Brasil acabou se tornando sinônimo de haste com ponta de algodão, foi introduzido nos Estados Unidos pela Johnson & Johnson em1921. Até então, a haste era feita de madeira e o algodão era aplicado em apenas uma das pontas. O produto tinha seu uso restrito em hospitais, na aplicação de remédios. Os cotonetes só chegariam ao Brasil em 1960, também em madeira. As hastes passam a ser fabricadas em plástico em 1963, com a denominação de “Johnson’s Swabs”. Até hoje o produto é líder no Brasil, com 38% do mercado. Como veio primeiro, ele criou um padrão que passou a ser seguido por marcas afins e ainda mantém forte apelo de consumo. As pessoas sentem mais confiança no produto original e ficam receosas de comprar outra marca que possa causar problemas, como por exemplo soltar fiapos de algodão dentro do ouvido.

Leite moça

Em 1921, é inaugurada a primeira fábrica da Nestlé no Brasil, em São Paulo, com o intuito de iniciar a produção do leite condensado Milkmaid. O curioso é que, por causa da figura da moça leiteira estampada no rótulo, os consumidores brasileiros identificavam-no como o “leite da moça”, devido à dificuldade de pronunciar o nome Milkmaid. Foi daí que o produto passou a se chamar, apenas no Brasil, de Leite Condensado Moça. Atualmente, a produção da Nestlé se volta também para os achocolatados, café solúvel, leites e cremes de leite. O Nescafé, aliás, foi produzido sob encomenda para o governo brasileiro, como forma de dar um destino os estoques de café.

Maizena

A marca Maizena é já comercializada no Brasil há 130 anos. Antes, o produto era importado e, em 1930, passa a ser também fabricado no País pela Refinações de Milho Brasil, que mais tarde seria incorporada à Unilever. A empresa abriu sua primeira fábrica em São Paulo para produzir o amido de milho em caixa retangular, de papelão, em tom amarelo forte. Com tanta tradição, a marca ficou consagrada entre os consumidores brasileiros, que transmitiam de mãe para filha e de filha para neta as receitas de mingaus, papas e dos deliciosos biscoitos de maisena. Até a grafia errada da marca da Maizena, que trocou o esse da maisena original pela letra “Z”, foi incorporada pelos brasileiros, o que costuma provocar a ira dos gramáticos. Nos dias de hoje, a Maizena da Unilever é dona de 87% do mercado, enfrentando concorrência restrita praticamente aos similares caseiros fabricados em cidades do interior.

Gillette
A velha lâmina de barbear, que acabou se tornando sinônimo do produto em todo o mundo, chegou ao Brasil em 1926. A Gillette é a marca mais conhecida de lâmina de barbear desde 1901, data da fundação da empresa por King Camp Gillette (foto). O norte-americano inventou a lâmina descartável e, com ela, a moda de os homens passarem a se barbear em casa – e não nas barbearias, como era o costume da época. Nas embalagens originais, aparece a foto do Senhor Gillette, ao lado da sua assinatura, conferindo credibilidade ao produto. Para se ter uma idéia da força da marca, na semana passada a empresa foi comprada por US$ 57 bilhões pela Procter & Gamble, fabricante das fraldas Pampers, do sabão em pó Ariel e da pomada Hipoglós. A fusão ainda precisa ser aprovada pelos organismos reguladores dos Estados Unidos.

Sabonete Lever

A Irmãos Lever lançou em 1932 o sabonete Lever no Brasil, com o mesmo perfil do europeu Lux. Lever já chegou como o "sabonete de beleza", um apelo mais forte para ganhar um mercado em que o sabão em barra, até por custar mais barato, ainda não tinha sido definitivamente substituído na hora do banho. Com essa proposta, o Lever buscou identificação com as mulheres mais belas do planeta, pegando carona na campanha internacional de Lux, a célebre "nove entre dez estrelas preferem...” Só mais tarde, em 1963, o produto seria rebatizado no País com a marca Lux e, dez anos depois, passaria a se chamar Lux Luxo. Entre as divas do cinema que, no passado, estrelaram as campanhas do sabonete, estão Marilyn Monroe, Brigitte Bardot (foto), Sophia Loren e a brasileira Carmem Miranda.

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