MARKETING - ORIGEM NA RELIGIÃO
Prof. Dr. Sebastião Breguez
Os profissionais da área de Comunicação, principalmente,
de Marketing, Publicidade e da Propaganda têm muito a agradecer aos religiosos cristãos que
foram os primeiros a desenvolver as técnicas de Comunicação Institucional desde
a Antigüidade. Todas as ferramentas que se usam hoje nesta área foram
desenvolvidas pelos comunicadores da
Igreja.
O primeiro veículo de comunicação de massa inventado até
hoje foi o sino. Cada batida transmitia uma mensagem. Atingia de 80% a 90% das
populações das pequenas cidades. Antes do sino, o arauto não passava de uma
mala-direta de pouca repercussão.
Depois deste grande veículo de comunicação, os religiosos
construíram um telhado alto, quatro, cinco, seis vezes mais alto do que os
telhados comuns das casas das cidades antigas. Eram as torres das igrejas. Muito
antes de se chegar à aldeia já se enxergava a torre da igreja. Por este display – palavra de hoje na
publicidade – as pessoas podiam com facilidade localizar a
igreja.
Mais do que isto, os cristãos inventaram o primeiro
logotipo, outra ferramenta que a publicidade usa em seu trabalho de fixar a
imagem das organizações. Toda empresa ou organização que se preze tem uma marca
de identificação, um logotipo. E ai nasceu o mais feliz de todos os logotipos, a
cruz. A cruz, que nunca deixa de estar na ponta de cada display ( cada
torre de igreja ). As pessoas chegavam às aldeias e diziam: “É lá a igreja, e se
trata daquela religião da marca da cruz, e não a da estrela de cinco pontas ou
de seis pontas nem a de meia-lua ou de outra marca
concorrente”.
Para se produzir um discurso oral ou escrito ( texto), a
publicidade usa outra ferramenta importante chamada pesquisa. O primeiro
departamento de pesquisa também foi inventado pela igreja: o confessionário.
Minha mãe, muito católica e de grande fé, diz sempre que o confessionário foi
feito só para perdoar, mas os padres sabem que o confessionário ajuda a recolher
subsídios e informações para orientar
estratégias de comunicação bem precisas como o conteúdo dos sermões ou
mesmo publicações sobre isto ou aquilo. Portanto, é um santo departamento de
pesquisa. Municiado pelo confessionário, o padre se convertia no conselheiro
maior das aldeias, mais forte do que o conselheiro político, mais forte que o conselheiro de venda do
comércio.
Mais uma coisa. Minha mãe recebe do departamento de
pesquisa da igreja um grande subproduto gratificante. Se eu quero me
reconstituir um pouco, de dentro para fora, vou a um psicanalista ( freudiano ou
não ), pago pela consulta de uma hora e ele me dá uma certa ajuda. A minha mãe,
a minha avó, as minhas tias e as de grande parte da população católica, vão a um
confessionário, e saem de lá reconstituídas, aliviadas. E perdoadas, coisa que
nenhum analista faz nem que você pague uma grande soma de dinheiro. Este
tratamento psicológico gratuito é muito conveniente, pois permite à igreja saber
o que está acontecendo na comunidade. Hoje, entretanto, se perguntarmos a um
rapaz de vinte anos sobre a igreja católica, possivelmente, ele estará por fora.
A própria igreja, talvez, porque o departamento de pesquisa esteja mais ou menos
desativado, não sabe direito o que se passa na mente de um jovem de vinte
anos.
A igreja inventou ainda o melhor audiovisual do mundo: a
Via Sacra. São quatorze quadros, dispostos sempre em sete de cada lado da
igreja. A Via Sacra conta a vida do Cristo com um visual rico e com o aúdio de
uma professora de catecismo.
Outro recurso de comunicação criado pela igreja, e que a
publicidade usa muito, é a trilha sonora. Não se pode fazer um comercial
(publicidade) de rádio ou TV sem a trilha sonora. A trilha sonora da igreja vem
do órgão, do coral, ou mesmo da sineta. Se tirarmos uma destas trilhas sonoras,
a cena fica tão banal...Sem a marcha nupcial na cerimônia de casamento, por
exemplo, perde-se toda a pompa...
Pode-se, também, dizer que o sentido promocional que a
publicidade usa hoje em dia, foi invenção da igreja. O que é uma procissão, que
chega a mobilizar uma cidade inteira ? Trata-se, sem dúvida, de uma promoção
religiosa. Hoje a publicidade faz eventos promocionais a partir do ensinamento
da igreja. Só que a mística comercial não é tão rica como a mística
religiosa.
Ainda sobre a mística religiosa, devemos falar sobre as
mudanças na missa e seu sistema. A mudança do sistema da missa do latim não foi
boa. Não existe mais missa em latim e o
padre não fica mais de costas para o público. Agora, com o padre de frente para
o público, perde-se um pouco daquela mística de falar com Deus. E a missa, em
português, perde muito em relação ao latim, que encantava os fiéis. São
observações de quem entende de comunicação e seu poder de encantar e influenciar
as pessoas.
Analisando mais do ponto de vista da comunicação, vamos a
outra analogia. A igreja sempre teve um grande produto – o principal produto – a
ser oferecido ao seu público: o produto chama-se fé. E ai temos uma notícia a
dar: o produto fé está em falta, não se encontra mais no mercado dos bens
simbólicos. Nem mesmo as igrejas têm hoje este produto para oferecer a seus
compradores, os fiéis. A igreja não propaga mais a
fé.
Sabemos hoje que a televisão e a sociedade de consumo não
são bem vistas pelos cristãos e pelos espiritualistas de todas as tendências.
Por suas ações de alienar as pessoas e incitar ao consumo, sem uma preocupação
de levar uma mensagem humana de crescimento psicológico e mesmo de libertação
espiritual. O que é correto, pois, a sociedade de consumo, articulada depois da
Segunda Guerra Mundial, só tem o objetivo de integrar os homens numa rede de
consumo internacional. E estamos presenciando muito bem isto com a Globalização.
Mas, em vez de excomungar a TV, talvez fosse necessário ver ela como como o sino
de hoje. Porque se o sino das igrejas bater hoje nas grandes cidades, ninguém
mais ouve. E se ouve, ninguém mais sabe que tipo de mensagem traz, se é enterro,
se é missa, se é chamado.
O display da igreja, a torre de ontem, que se
destacava sempre na aldeia antiga, hoje se perdeu na selva do cimento (beton)
dos arranha-céus da cidade moderna. O departamento de pesquisa ( confessionário)
também está funcionando precariamente. Não adianta muito o padre ficar sentado o
dia inteiro no confessionário, porque a freqüência da igreja diminuiu e não foi
renovada.
O objetivo destas notas é de chamar a atenção para o
poder da Comunicação – daquilo que chamamos hoje de Marketing Religioso. E vamos
tecer alguns comentários sobre segmentos do mercado espiritual – em Marketing
isto é importante. O público religioso ( ou espiritual) pode ser dividido em
três:
1) O primeiro grande comprador em potencial do produto
espiritual das igrejas são os doentes. Os doentes, querem, precisam, necessitam
da fé.
2) O segundo segmento de mercado das igrejas são os
velhos. As pessoas idosas passam a acreditar na passagem deste mundo para outra,
tendem a ter fé e há, então, uma volta para a
igreja.
3) O terceiro pedaço do mercado religioso, o enorme
contigente de pessoas é o que requer uma atenção especial, pois, é hoje o mais
difícil a ser trabalhado pelo discurso religioso, são as crianças, os jovens e
adultos prósperos e sadios no auge da vida. Este segmento de mercado, que
representa hoje cerca de 80% da população total, está descrente dos valores
espirituais e está fora do alcance das mensagens religiosas por várias razões.
PRIMEIRO: quando falar com eles ? SEGUNDO: como falar com eles ? TERCEIRO: onde
falar com eles? Que tipo de atividades este pessoal anda fazendo, quando estão
dispostos a ouvir ?
Para concluir, pode-se dizer que hoje os papéis estão
invertidos. Se a igreja e seus arautos desenvolveram as técnicas de Comunicação
(Publicidade e Propaganda) para difundir a mensagem do Cristo que temos à nossa
disposição, hoje é ela que precisa repensar todo o seu processo comunicacional
para sobreviver. Ou seja, para reconquistar os fiéis ( seu público) com o seu
principal produto ( a fé) e se manter no mercado ( das mercadorias religiosas )
tem que voltar aos primórdios da Igreja do Cristo e reestruturar a Comunicação.
Senão não vai atingir os 80% da população que se distanciou dela por causa dos
discursos ultrapassados que não têm mais o poder de passar mensagens e causar
motivação nos dias de hoje.

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